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domingo, 25 de setembro de 2011

Resenha: AS CIDADES INDIZÍVEIS


Foi no Fantasticon, Simpósio de Literatura Fantástica ocorrido em meados de agosto, que “As Cidades Indizíveis” (Llyr Editorial, 180 páginas) chegou pela primeira vez as mãos do público, numa das estreias da Llyr, selo dedicado à literatura fantástica que opera como parte da editora Vermelho Marinho, aqui do Rio. O projeto da coletânea, que conta com a participação de alguns pesos pesados da ficção científica/fantasia brasileira, já rodava pelos bastidores há dois anos, até encontrar uma casa na recém-nascida editora, comandada pela carioca Ana Cristina Rodrigues. A organização dos contos ficou nas mãos de Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira.

São oito contos e uma noveleta que procuram trazer o fantástico, em maio ou menor grau, para dentro do ambiente urbano. As abordagens são muito particulares e o resultado final, bastante diversificado, flertando ora com a fantasia urbana, ora com a ficção científica cyberpunk, ora sabe-se lá o quê. Considerando como um todo, o livro me agradou, embora alguns dos contos tenham saído prejudicados pelo excesso de atenção dedicada à forma, com a história e personagens ficando em segundo plano.

Um a um:


Galimatar – Fábio Fernandes

O autor de “Os Dias da Peste” abre os trabalhos com um texto muito interessante, ambientado num futuro em que uma África utópica se ergue das ruínas de guerras e fatais erros da ciência. Em seu seio, uma nova Etiópia se estabelece como centro do mundo – uma “Etiópia Pop”, ou EtiPópia. O dinheiro foi substituído por um sistema de trocas conhecido como potlach, e nesse novo mundo é lá que as coisas acontecem.

Nesse cenário, conhecemos a Xamanesa e o Homem Azul, duas figuras enigmáticas que se encontram em meio à agitação da EtiPópia. Ninguém sabe quem é a mulher, de onde ela veio, qual é sua história; o homem está de partida para o espaço, juntar-se à procura de vida fora da Terra. A ação do conto consiste basicamente do contato entre ambos, cujo combustível é uma irresistível curiosidade mútua.

Cenário e personagens são apresentados de maneira fluida e bem construída. A narrativa se mantém interessante por toda a aura de estranheza que envolve a Xamaneza e o Homem Azul. A linguagem do autor é simples e de muito bom gosto. O conto se sairia um pouco melhor com um final menos corrido, mas não chega a comprometer. Uma boa abertura.


Céu do Nunca – Guilherme Kujawski

Um escritor solitário (de literatura fantástica, não por acaso) vai se tornando cada vez mais obcecado por uma cidade que só existe em sua mente.

E é basicamente isso.

O texto tem claras qualidades. Linguagem rica, um protagonista bem desenvolvido, reflexões interessantes acerca da criação literária. Mas a falta de conflitos deixa a coisa arrastada demais, e o desfecho para o qual a narrativa se encaminha me pareceu um tanto insatisfatório. A piração do cara em torno da cidade que vai surgindo em sua mente aos poucos é muito bem descrita, mas isso é praticamente tudo que o autor nos apresenta. Não é um texto que fique na memória.


O longo caminho de volta – Ana Cristina Rodrigues

Na trama, a exilada Clio volta para sua cidade natal, Biblos, a cidade-biblioteca. Protegida por uma magia que impede a entrada de forasteiros e preserva os livros das mudanças climáticas, a cidade vive de vender seu conhecimento para outros povos. Dez anos atrás, Clio fora banida como pena por suas intenções perigosas: libertar o conhecimento dos limites da cidade, desafiando, assim, o Conselho de Biblos e seu desejo pelo status quo. Pela Lei, a mulher tem direito a uma revisão em sua pena – mas os planos de Clio não envolvem esperar sentada por justiça.

O conto agrada pela atenção dedicada a trama e aos personagens, e a própria Biblos, essencial para que o leitor acredite no que está lendo. Os “bairros” se dividem de acordo com seções (Medicina, Feitiçaria, Astronomia), tal e qual uma verdadeira biblioteca. Outra boa sacada é o desprezo do Conselho pelo setor de Ficção, cujos moradores exercem funções menores na cidade, numa ironia interessante que demonstra bem como as coisas funcionam lá dentro.

Com bons personagens e uma boa história, a leitura flui com naturalidade, o leitor preso às páginas. O desfecho é particularmente bem pensado. Sem dúvida um dos melhores da antologia.


O dia em que Vesúvia descobriu o amor – Octávio Aragão

O menor conto do livro é também um dos mais interessantes, partindo de um plot que por si só merece atenção: uma cidade que um belo dia ganha vida, e mais, se apaixona por outra, pondo-se a se mover em sua direção, carregando tudo e todos que a compõem.

As descrições de Aragão criam um forte sense of wonder que faz com que o conto fique na cabeça ao término da leitura. Uma vez desperta, toda sorte de pensamentos passa a se desenrolar na mente de Vesúvia, e o autor traduz suas sensações de tal modo que a consagra uma das personagens mais marcantes da antologia.


Harmonia – Roberto de Souza Causo

Ao menor, segue-se o maior. A noveleta de Causo segue os passos de Sandra Matsugane, uma animadora de festas que tem a vida virada de ponta cabeça quando Mônica, amiga com quem dividia casa, é encontrada morta. A polícia rapidamente a associa com atividades de prostituição com as quais Sandra jamais sonharia que a amiga estivesse envolvida. A moça passa a investigar o caso por conta própria.

A noveleta corre completamente realista por um bom tempo, inserindo-se abertamente dentro do gênero policial, para ir aos poucos caminhado para dentro do fantástico e abraça-lo inteiramente do meio em diante. Todo o clima criado pelo autor no momento em que o real começa a ser tocado pelo maravilhoso é um dos pontos altos do texto. A parte policial poderia ter sido melhor trabalhada – a trama parece um tanto imprecisa em certos momentos, e o final corrida prejudica o todo –, mas quanto à fantasia presente na história, não há do que reclamar. O autor consegue como poucos na coletânea inserir o fantástico dentro do urbano. Juntamente com o da Ana Cristina Rodrigues, meu favorito.


Primeiro de Abril: Corpus Christi – Luiz Bras

(Quem já leu minha resenha da coletânea “Imaginários vol. 4” talvez estranhe, uma vez que há um conto com o mesmo título e do mesmo autor no livro da Draco. Sim, trata-se do mesmo texto – de certa forma. Aqui, o temos completo; lá, um trecho que faz sentido isoladamente, tendo por isso sido publicado no quarto volume da série.)

Quando a cidade de Primeiro de Abril ganha consciência e passa a agir independente da vontade dos humanos, um grupo de ciborgues precisa enfrentar a situação e tentar reestabelecer o controle. Se o fragmento publicado pela Draco já era bastante louco, aqui temos a visão completa da doideira.

Bras – pseudônimo de Nelson de Oliveira, organizador – imprime um ritmo bem peculiar à narrativa, conduzindo-a com linguagem cuidadosa, apostando na forma para seduzir o leitor. Consegue. Mas não fica só nisso, cria personagens divertidos e os coloca no meio de uma situação que gera interesse. O resultado final é satisfatório. Frustra um pouco o silêncio derradeiro do autor em relação a certos elementos da trama que vão sendo levantados só para não receberem uma explicação para sua relevância (como a questão do narrador, sua irmã e um certo roubo praticado por ela). Toda a piração habilmente narrada que vimos anteriormente compensa, mas só em parte.


O Coletivo – Luiz Henrique Pellanda

Dois narradores em paralelo, um homem e uma mulher, contam os lados de uma história que envolve cegueira, duas irmãs, um romance proibido e uma cidade que sobrevive do que morre no nosso mundo. Um conto arrastado, com personagens pouco calorosos e uma trama que parece se mover para lugar nenhum. Muitíssimo bem escrito, deve-se dizer, mas fora isso não apresenta nenhum grande atrativo ou elemento que gere interesse. Acabou não me chamando a atenção.


Mnemomáquina – Ronaldo Bressane

Um conto confuso, que acompanha alguns personagens numa São Paulo quase que inteiramente tomada pela água. Só é possível trafegar usando hovercrafts e veículos similares. Só conhecemos o narrador pouco antes da metade da história, e o pouco que sabemos sobre ele reflete o pouco que ele mesmo sabe sobre si. O tom irônico, coloquial, e a ambientação (que me pareceu flertar com o cyberpunk) decadente são as melhores coisas do texto. Fora isso, o que se tem são personagens que são inicialmente desenvolvidos para no fim das contas sumirem, sem que se esclareça sua relevância para a trama, e um desfecho artificialmente enigmático, apoiado na recusa do autor em oferecer respostas para as perguntas que desperta sabe-se lá por que razão. Frustrante.


Cidade Vampira (Entidade Urbana) – Fausto Fawcett

O conto que fecha a antologia é o que leva às últimas consequências a ideia de cidade. No universo criado por Fawcett, todo o planeta se converteu num enorme amontado urbano: a Tera Cidade Terra. Nesse contexto, uma seita de gnósticos espalha cadáveres por todos os cantos. Em sua crença, certos tipos de rituais conseguirão atrasar o juízo final, a descida do deus alucinado que criou a raça humana e nela incutiu o desejo pela urbanidade. Presos nas cidades, os homens não conseguem alcançar o conhecimento que os libertaria. Um antigo policial, El Diablo, que antes caçava gnósticos, enlouqueceu e passou para o lado deles. O tenente Amarildo e a psicóloga forense Rebeca o perseguem.

Trata-se de um texto difícil. Fawcett não tem freios: escreve numa espécie de semi-fluxo de consciência que faz surgir parágrafos que ocupam páginas inteiras. Sua linguagem é carregada de sarcasmo, e o texto é irreverente como um todo. Mas um pouco de comedimento não faria mal: a quantidade de vezes em que o autor repete a mesma informação (por vezes aquela que dera algumas poucas linhas antes, já perfeitamente entendida pelo leitor) chega a irritar, assim como sua inclinação a repetir palavras (pensei em contar quantas vezes Fawcett usa alucinado, mas desisti). O conto acaba ficando muito preso numa coisa só, e há pouca ação. Ainda assim, trata-se de um texto interessante, principalmente o final.

É isso.

Boas leituras.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Resenha: IMAGINÁRIOS VOLUME 4


Este quarto volume da série “Imaginários”, da editora Draco, foi um dos muitos lançamentos que chegaram ao público durante a quinta edição do Fantasticon, Simpósio de Literatura Fantástica ocorrido entre os dias 12 e 14 de agosto em São Paulo. Novamente no papel de organizador esteve Erick Santos, editor da Draco, repetindo o duplo papel exercito no terceiro volume da série, já resenhado aqui (triplo, uma vez que também há um conto seu no livro). Reunindo autores em sua maioria conhecidos dentro do fandom do gênero fantástico brasileiro, a coletânea repete a qualidade do volume anterior, elencando textos que passeiam entre as muitas temáticas possíveis do terror, fantasia e ficção científica.

Vamos a um breve comentário sobre os contos da “Imaginários Volume 4”.

O cão – Leonel Caldela (@leonelcaldela)

O conto de abertura nos apresenta um cenário de fantasia onde humanos convivem em constante tensão com fadas – ou seres feéricos, como também são chamados. O filho de um duque humano narra suas aventuras ao lado do melhor amigo, um cachorro, da infância à maioridade, numa vida pontuada por encontros com os misteriosos lordes feéricos. Texto muitíssimo bem escrito, rico em descrições e ótimo no que diz respeito ao desenvolvimento do protagonista-narrador. O autor opta por não fornecer explicações para certos dados e acontecimentos – nunca fica claro o porquê de as fadas não serem capazes de criar, por exemplo, o que as prende num ciclo de cópia do que é humano –, o que apenas salienta o caráter fantástico e misterioso da trama. O desfecho honra todo o bom desenvolvimento – a cena final é particularmente impactante –, embora certa decisão tomada pelo protagonista aconteça de maneira um tanto gratuita, sem que seja possível entender sua motivação. Uma falha pequena num conto de grande qualidade.

Ela – Fábio M. Barreto

Um misterioso ser – a Ela do título – chega a um planeta inabitado com a missão de analisa-lo e povoa-lo de acordo com as condições apresentadas por seu ambiente. Longe dali, os últimos sobreviventes de um planeta em ruínas tentam desesperadamente escapar de seus perseguidores, uma raça alienígena impiedosa que não descansará enquanto não exterminá-los por completo. As duas narrativas correm em paralelo, com maior ênfase na primeira, que impressiona pela atenção dispensada pelo autor à complexidade do planeta. Também é importante para a trama a descoberta, por parte d’Ela, de sentimentos que até então só conhecia como conceitos, à medida que faz previsões sobre possíveis futuros naquele ambiente onde florescerá vida. Trata-se de um texto relativamente curto, embora a prosa encorpada do autor chame a uma leitura mais lenta e atenciosa, sem transformar o conto numa experiência arrastada ou enfadonha.

O Anel e a Pérola Solitária – Georgette Silen (@georgettesilen)

Moira, desde sua infância, se vê cercada por estranhas vozes que só ela consegue ouvir. Com quinze anos recém completos e uma estranha vontade de liberdade e contato com a natureza, a adolescente presencia um estranho fenômeno quando é atacada pelo valentão do colégio, e a partir daí começa uma teia inimaginável de descobertas. O conto tem um tom claramente infanto-juvenil, apresentando alguns dos principais elementos que comumente são associados à histórias direcionadas a essa faixa etária: a descoberta da identidade, a sensação de não pertencimento, repressão e bullyng sofridos sem motivo. A autora é bem sucedida ao retratar as mudanças – obviamente mágicas – sofridas por Moira ao longo do conto, descrevendo-as numa prosa ágil e elegante; peca um pouco, a meu ver, no uso excessivo dos pontos de exclamação, que parecem a todo momento querer reforçar um clima fantástico que já está lá. Não compromete o conto como um todo, no entanto.

Primeiro de Abril: Corpus Christi – Luiz Bras

De longe o conto mais doido da antologia, e digo isso no bom sentido. A trama – o que mais se pareceria com uma – segue um grupo de ciborgues em meio ao colapso de uma cidade que se tornou consciente e agora age por conta própria. O grande barato do texto é marcadamente a prosa, elemento que o destaca em relação aos outros textos da coletânea. É bastante difícil entender o que realmente está acontecendo nas páginas, de modo que, em certo momento, o leitor tende a abstrair esse detalhe e embarcar na experimentação do autor. Como ponto fraco, eu apontaria uma certa incompletude do texto, que desperta mais perguntas que respostas ao final da leitura.

Névoa e Sangue – Nazarethe Fonseca (@NazarethFonseca)

Os vampiros não podiam deixar de dar as caras. Na história ambientada na era vitoriana, um rico chupador de sangue desenvolve uma extrema obsessão por uma criada, Mary, que obviamente desconhece as necessidades sanguinolentas de seu patrão. O conto apresenta vampiros à moda antiga, do tipo que não tem escrúpulos quanto a matar para se alimentarem – nesse sentido, é uma sacada bastante irônica da autora batizar o vampirão protagonista de Edward. A obsessão, veículo condutor da narrativa, não me pareceu bem construída; nunca conseguimos entender realmente o que Mary tem que excita tanto seu empregador-vampiro. O texto não tem grandes atrativos, mas também não apresenta falhas monumentais. Divertido, pouco mais que isso.

O Incrível Congresso de Astrobiologia – Cris Lasaitis (@crislasaitis)

Nesse breve conto – o menor da coletânea –, a autora do bacaníssimo “Fábulas do Tempo e da Eternidade” (já leu minha resenha?) apresenta a bióloga Lima C., convidada para o MCXI congresso de Astrobiologia por seres que nunca sabemos realmente quem são. Trata-se de um texto simpático e imaginativo, quase todo conduzido (e bem conduzido) em segunda pessoa, que versa sobre a pequenez humana em relação ao universo. Para ser lido de uma vez só.

Brazil Reloaded – Antonio M. C. Costa (@ALuizCosta)

Ambientado nos Estados Unidos décadas no futuro, o conto segue o ex-presidiário Jamal, que se envolve numa situação fora de controle após aceitar fazer um arriscado serviço para uma célula política radical. O texto de ritmo ágil é o mais recheado de ação entre todos os da coletânea, embora esta nem sempre soe convincente. Por outro lado, o cenário criado pelo autor é curiosíssimo: nele, os EUA são tudo menos a potência de hoje, e países como Brasil e China ocupam o lugar antes pertencente aos yankees. Há momentos divertidos, sobretudo quando entra em cena o capitão Nascimento – qual semelhança com aquele capitão Nascimento é mera coincidência, ou não –, que trás boas doses de brasilidade à narrativa.

Bons Inimigos – Claudio Brites (@claudiobrites)

Um dos textos mais complexos do livro. A narrativa não linear se concentra em três desconhecidos que um dia acordam num ambiente fechado, juntamente com um cadáver que inicialmente não se sabe quem é. Através de flashbacks vamos entendo, bem lentamente, o que os levou àquela situação. Texto muitíssimo bem conduzido, prosa sólida e estilosa, trama sombria e carregada de suspense. O único problema, a meu ver, é a narrativa paralela, que acompanha uma tribo de índios durante a complexa preparação para um ritual de execução. O final causa dúvida e estranheza, pois não se enxerga ligação direta entre as duas, além de certa semelhança temática, o que pode tornar a experiência um pouco decepcionante para alguns. Abro o parêntese, no entanto, para um possível não entendimento da minha parte.

A Chave – Renato A. Azevedo

Uma ciber-mercenária em missão a mando de um ciber-mafioso se lança contra diversos ciber-inimigos numa ambiente virtual que pode ser fatal. Conto de pegada ágil e bastante divertido. A trama vai ganhando novos contornos e proporções, e o que se pensava simples vai se mostrando mais e mais complexo. O autor peca, no entanto, na condução dos diálogos, excessivamente expositivos em sua maioria, e também em certa cena de ação que envolve uma corrida de motos, que, apesar de muito bem escrita (sugando elementos dos videogames), não acrescenta muito à trama. Os personagens são estereotipados e os caras maus são maus e pronto. O texto fica melhor do meio para frente, quando as primeiras reviravoltas surgem. A reviravolta final, no entanto, me pareceu um tanto forçada.

O Turista – Erick Santos (@ericksama)

O editor da Draco faz sua estreia como autor num conto que, junto com o de Brites, forma uma dupla e tanto. A narrativa em forma de quebra-cabeças acompanha um homem em suas andanças na Europa, enquanto lida com algumas mulheres e as próprias lembranças. É o tipo de texto que convida, ou melhor, clama por uma segunda leitura para que se consiga encaixar as peças em seus devidos lugares, destacando-se também pela escrita seca e carregada de melancolia. O autor realmente consegue delinear o isolamento do personagem e mergulha o leitor na neura de descobrir, afinal de contas, o que está acontecendo com ele. O que não é tarefa simples, dada a não linearidade e a fragmentação do texto. Esperemos que o editor se aventure mais vezes como autor.


É isso.

Boas leituras.

domingo, 12 de junho de 2011

Resenha: FÁBULAS DO TEMPO E DA ETERNIDADE - Cristina Lasaitis

Lançado em 2008 e já em sua segunda edição, “Fábulas do Tempo e da Eternidade” (Tarja Editorial, 206 páginas), livro de estreia da paulistana Cristina Lasaitis, é uma coletânea de contos que transitam majoritariamente entre ficção científica e fantasia, tendo como tema principal a passagem do Tempo. Com abordagens sempre particulares e estabelecendo entre si algumas interessantes conexões, os doze textos que compõem o livro destacam-se pela qualidade da escrita e pelas tramas multifacetadas, abraçando o fantástico sem nunca se descuidar do aspecto humano, com todos os sentimentos e contradições que o envolvem.

O primeiro conto, “Além do Invisível”, apresenta-nos um cenário futurístico em que a realidade virtual tornou-se a realidade, onde acompanhamos o romance de Marcos e Maya. A autora é competente em contrastar a magnitude dos cenários irreais com a decadência do mundo onde os usuários se conectam, e retrata o amor entre os dois de maneira bastante sensível, apesar das circunstâncias surreais em que a relação se situa (ou quem sabe exatamente por causa delas). A conclusão do conto é singela e enigmática, tornando-o uma boa amostra do que se seguiria nos próximos textos.

Em “As Asas do Inca”, conhecemos um poderoso imperador do império pré-colombiano obcecado pelo desejo de observar o futuro. Para isso, recorre à magia. O conto tem um tom claramente fabuloso – que a pequena introdução já antecipa – e, apesar do desfecho algo previsível, naturalmente balizado por uma lição de moral (não seria uma fábula caso não houvesse uma), consegue convencer, remetendo à natural curiosidade humana e colocando-a lado a lado com o desejo pelo poder, uma combinação que fatalmente trás consequências.

“Nascido das Profundezas” narra um encontro entre culturas num Atacama pós-apocalíptico. De um lado, os neo-atlantes, desenvolvidos em saberes e tecnologia, de outro, grupos nativos que literalmente pararam no tempo após um período de guerras e peste. A reação é de estranhamento por parte dos primeiros, e festa por parte dos segundos. A autora explora bem o cenário criado, e os desdobramentos do pano de fundo – a história por trás da história, que aqui surge adequadamente em volta de uma fogueira, contada por um velho, envolta num tom lendário – soam verossímeis dentro daquelas circunstâncias obviamente fantásticas. Um ótimo texto.

Em seguida vem “Revés Alquímico”, provavelmente o conto que menos me agradou. Nele, uma farmacêutica começa a trabalhar com um excêntrico professor amante da alquimia, e os dois metem-se com o segredo do famoso Elixir da Longa Vida. O principal problema do texto são os personagens, um tanto desinteressantes, e o tom cômico de muitas das situações, que a meu ver atrapalha por impedir um envolvimento maior com a trama. Por outro lado, os efeitos do elixir são um pouco diferentes do que seria de se supor, e a autora merece pontos pela boa sacada. Ainda assim, penso que um desenvolvimento um pouco mais sério contribuiria para um todo mais satisfatório.

A ficção científica volta em “Assassinando o Tempo”. Uma cientista brasileira está às vésperas de colocar em prática uma experiência que pode vir a provar uma teoria sem precedentes na história da Ciência: a não existência do Tempo. Dispensando a atenção necessária ao aspecto científico da trama sem soar maçante ou prolixa, a autora também acerta ao investir algum tempo no desenvolvimento da protagonista, Cláudia Mansilha. Bem trabalhado ainda na construção do suspense em torno do experimento e na especulação de possíveis desdobramentos do mesmo (nesse sentido, a oposição de grupos religiosos soa mais do que verossímil), o conto destaca-se como um dos melhores do livro.

Segue-se “A Outra Metade”, e o nível continua alto. Uma sibila* caminha pelas ruas de uma metrópole, sozinha, fadada a nunca encontrar sua alma gêmea, de quem fora separada na Criação. Porém, oferecendo um sacrifício à Solidão, a mulher tem a chance de olhar para o futuro e capturar um breve vislumbre daquela que lhe completaria de acordo com a ordem do universo – seu amor, sua outra metade. Lasaitis trata o tema com uma singeleza desconcertante num conto que merece destaque pela beleza das palavras. A solidão da sibila surge de maneira aterradora, amparada pela prosa ágil e quase lírica da autora, permeando cada linha e culminando num clímax poderoso - o encontro -, uma intensa explosão de sentimentos habilmente narrada e bem urdida. De longe, meu texto favorito.

Em “Viagem Além do Absoluto”, os dois últimos seres viventes vagam por um universo em ruínas, com a entropia alcançando seu limite. Em certo sentido, dada a temática do livro, esse conto representa seu ápice, o momento em que o Tempo e tudo mais deixarão de existir. A perspectiva do Fim por si só já desperta interesse e fascinação, e a autora é competente ao explorá-la, coroando o texto com passagens que revelam sentimentos de maneira sutil e humana.

“De Onde Viemos, Para Onde Vamos” tem como grande barato a inusitada identidade de seu narrador, uma escolha criativa e divertida que dá algo mais ao breve conto – trata-se do menor do livro. Destaque também para o ótimo final.

“Irmãos Siameses” vem em seguida. O título é autoexplicativo: os protagonistas são dois irmãos que nascem ligados pelo pescoço. O cenário é o mesmo deserto visto em “Nascido das Profundezas” (os dois contos dialogam abertamente, em dado momento). A trama foca basicamente no crescimento dos irmãos, e, em certo momento, numa dura escolha que terão de fazer. O conto naufragaria caso os personagens principais não fossem bem construídos, e, felizmente, isso não ocorre. O leitor se envolve com a narrativa na mesma medida em que se importa com os irmãos, em outra boa demonstração do bom gosto da autora na criação de personagens.

“Caçadores de Anjos” abraça novamente a fantasia, narrando a jornada de uma caçadora especializada em transformar anjos caídos em humanos. Funciona bem, com um clímax bastante intenso, mas, por outro lado, pareceu-me um tanto deslocado em meio aos outros contos do livro quanto a sua relação com a temática central. De todo modo, um bom texto.

“Os Parênteses da Eternidade” consiste numa troca de correspondências entre duas pessoas distantes alguns séculos uma da outra, através do Correio do Não-Tempo. Este conta apresenta alguns interessantes desdobramentos dos acontecimentos vistos em “Assassinando o Tempo”, além explorar alguns dos paradoxos e riscos da comunicação entre épocas diferentes. Bom como a maioria.

Fechando as Fábulas, apropriadamente, “Meia-noite”. Passado no mesmo universo de “Além do Invisível”, que abre os trabalhos, e compartilhando com este primeiro alguns personagens, a história de Syl, funcionária de uma poderosa corporação atacada por uma Inteligência Artificial dá um ótimo fechamento ao livro, remetendo diretamente ao cyberpunk das tecnologias integradas de maneira quase orgânica à vida cotidiana e dos grandes conglomerados mandando no mundo. Com um término vibrante – o último parágrafo fica na cabeça depois que se fecha o livro – o conto estabelece-se facilmente como um dos melhores da seleção e mostra definitiva do talento da autora.

“Fábulas do Tempo e da Eternidade” é uma forte recomendação.

Boas leituras.

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