
Protagonizado por Jack McEvoy – que não é o personagem mais conhecido e recorrente de Connelly, lugar este ocupado pelo tira Harry Bosch, protagonista da maioria de seus livros –, a história se inicia com a demissão do repórter do Los Angeles Times como parte de um programa de redução de despesas. Porém, Jack não terá de ir embora imediatamente: mais duas semanas de trabalho o aguardam, durante as quais terá de treinar Angela Cook, sua jovem e versátil substituta. Sem muitas perspectivas em relação ao trabalho – os jornais impressos estão perdendo espaço para a internet -, McEvoy decide se despedir em grande estilo, investigando a prisão de Alonzo Winslow, rapaz negro que está sob custódia pelo brutal assassinato de uma stripper. Porém, o que o jornalista sabe sobre o caso é somente a ponta do iceberg.
A história é narrada pelo próprio McEvoy em ritmo de contagem regressiva, uma vez que todo o tempo que lhe resta são duas semanas. De modo que, desde o início, um forte senso de urgência é impresso na trama, o que de imediato atrai o leitor e o prende à narrativa. Merece destaque também as boas descrições do autor – que, antes de se tornar escritor em tempo integral, trabalhou como repórter – do ambiente e da rotina do Los Angeles Times, que conferem verossimilhança e detalhismo à história. Nesse sentido, o atual contexto dos jornais impressos e as enormes mudanças ocasionadas pelas edições on-line, temas abordados por Connelly em momentos muito bem encaixados, ajudam o leitor a se situar e entender melhor a dinâmica entre os personagens que cruzam as páginas de “O Espantalho”.
Em grande medida, McEvoy – que protagonizou outro sucesso de Connelly, “O Poeta” – é um personagem bastante clichê, o tipão repórter ambicioso sempre em busca de uma exclusiva, o cara que conhece os meandros do sistema e sabe a que saídas recorrer. Ao mesmo tempo, há nele muito do herói durão que não gosta de esperar acontecer e resolve a parada sozinho quando tem que fazê-lo, e de quebra salva a donzela em perigo. É mérito de Connelly, portanto, conseguir transforma-lo numa figura crível e humana. Por outro lado, a agente do FBI Rachel Walling, antiga paixão de McEvoy que retorna para ajuda-lo na investigação, é uma das figuras mais bacanas do livro – também figurando em outros dos romances de Connelly –, soando competente e verdadeira quanto aos sentimentos, nunca se tornando uma figura fragilizada, mesmo que momentaneamente frágil.
Em relação à trama, não há grandes surpresas ou reviravoltas ao longo do romance. Isso se deve à escolha do autor de apresentar duas linhas narrativas, uma acompanhando McEvoy em sua investigação e outra seguindo o misterioso Carver, que o tempo todo sabemos ser o assassino por trás de tudo. Trata-se de uma opção sem muita razão de ser, em minha opinião, pois a ausência de surpresas é sempre frustrante em se tratando de um romance policial. O que conta em “O Espantalho” acaba mesmo sendo o jogo de gato e rato entre McEvoy/Walling e Carver. Connelly consegue imprimir suspense na história, que nunca se torna enfadonha ou desinteressante, pondo em conflito sua dupla de investigadores contra um psicopata que parece estar sempre um passo a frente de todos, criando uma dinâmica bacana que faz o leitor se perguntar o que acontecerá quando o momento do conflito chegar. Mas desconfio de que, se tivesse apostado numa trama mais “tradicional” – em que o mistério só é desvendado no final – o saldo final teria sido muito mais interessante.
Bem, é como minha memória anunciou no momento em que eu comprava este “O Espantalho”. Depois de tanto tempo nas listas de mais vendidos, o experiente Connelly dificilmente apareceria com algo que não pudesse ser considerado bom. É o caso aqui. Apesar de uma escolha narrativa um tanto incomum e muito pouco grata, o autor consegue se sair bem e apresentar um romance sólido e bem construído, mesmo que não espetacular. Já vale a pena.
Boas leituras.
Como você sabe, foi o primeiro livro dele que li e virei fã. Eu nem ligo muito se a fórmula for batida, se o autor a executar bem. E até gosto quando a gente sabe quem é o assassino antes. Eu fico agoniada por saber o que o 'mocinho' não sabe. :P
ResponderExcluirAmplexos!
Olá amigo(a), tudo bem?
ResponderExcluirGostei do seu blog, e já estou seguindo...
Abraço, ótimo carnaval!
https://tavaresplugado.blogspot.com.br/