quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Conto: TARDE DEMAIS PARA ESQUECER - Parte 1

(Conto originalmente escrito como trabalho final da disciplina Identidades Culturais na Contemporaneidade, do curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense. Erros referentes ao procedimento policial e ao trabalho de perícia são de minha total responsabilidade.)


“O que você tem que entender é que eu só aceitei fazer a coisa porque estava fodido. Completamente. Não pensei direito na hora. Estava para ser despejado de casa a qualquer minuto, mal tinha dinheiro pruma refeição, meu filho não olha na minha cara e ninguém contrata gente com passagem pela polícia. Quando ele apareceu, eu estava num bar. Tinha tomado uma pinga pra afastar o frio, e estava pensando como ia fazer pra pagar. Não sei como ele chegou em mim, mas já se aproximou sabendo quem eu era e que, na minha situação, eu tava topando qualquer coisa. Mas ele me ouviu, cara. Deixou eu falar da minha vida sem interromper, olhando no olho. Quase como um amigo de anos, sabe? Eu lembro de ter pensado: ‘Ei, taí um sujeito bacana.’ Ele respeitou, falou comigo sem me ver como inferior. Por isso eu gostei dele. Acho que foi por isso que eu aceitei fazer o que ele me pediu. Quando a gente estava pra sair, ele chegou mais perto e disse que sabia que eu tava passando um aperto. E que podia me ajudar.”

“Se você matasse alguém?”

“Se eu matasse alguém.”

* * *

1

Sangue. Sangue e miolos agarrados à parede. Como um borrão de tinta numa tela branca. Foi a primeira coisa que viu quando entrou no quarto de Valter. Demorou a assimilar a cena – o vermelho denso estampado na parede, o cheiro desagradável que imperava lá dentro, mistura cigarros e livros velhos – e ficou um bom tempo paralisado na entrada, temeroso do que encontraria quando se movesse mais para dentro e um novo ângulo revelasse o que a cama agora escondia.

Deu alguns passos, engolindo em seco. Contornou a cama. O corpo estava caído e o chão empesteado de sangue. Havia roupas por toda parte. A arma – a velha arma que Valter guardava no pequeno cofre escondido na cômoda – jazia cerca de vinte centímetros da mão de seu primo, imersa. Mais tarde ele não saberia dizer quanto tempo ficou ali, piscando e tentando acordar de um sonho que não estava acontecendo. Também não saberia precisar quando as lágrimas começaram a se precipitar de seus olhos e o peito a apertar-se, como se uma mão impiedosa comprimisse seu coração.

Vinícius estendeu a mão, emergindo do transe, e pegou o celular de Valter, caído ao pé da cama. Discou e esperou e, quando atenderam, ele estranhou a voz que lhe saiu da boca; parecia estranha e distante, fraca como a de um velho, um sussurro carregado de não-ditos. Quando terminou de falar, sentou-se na cama. Olhos fixos e boca seca. Ainda estava lá, imóvel, encolhido, quando sentiu o toque no ombro e ouviu a voz que o chamava à realidade. Foi retirado. Enquanto saía, seus olhos buscaram até o último instante a poça de sangue que se alastrara por debaixo da cama, e o aroma do quarto havia se infiltrado em suas narinas de tal modo que não foi possível esquecê-lo durante muito, muito tempo.

2

A ruela fazia esquina com a avenida principal do bairro, e a vila ficava quase no final dela, espremida entre uma padaria e uma pequena agência dos Correios. O portão enferrujado estava aberto, e um policial militar postava-se na entrada, braços cruzados contra o peito e expressão de quem gostaria de estar em outro lugar. Amarante viu que tinham isso em comum. Ninguém gosta de lidar com gente morta, mas acontece. Era raro, no entanto, já abrir o plantão com um cadáver nas mãos; raro e nem um pouco animador. A madrugada é povoada por arruaças, festas barulhentas demais, problemas com bêbados, viciados, prostitutas e outros incidentes semelhantes. De vez em quando alguém morria. De vez em quando alguém era morto. De vez em quando alguém ligava dizendo que havia um cadáver no quarto, e, meu Deus, tem sangue por toda parte. Venham, venham logo.

Era por volta de meia-noite e meia. Fazia muito frio. Ele enterrou ainda mais fundo as mãos nos bolsos.

Assim que pôs os pés na vila, Amarante percebeu que já estivera ali antes. A sensação veio-lhe forte, instantânea. Ele olhou para uma das casas, tomada pela escuridão, e viu uma criança sentada no chão, examinando com atenção algo redondo entre o indicador e o polegar; um garoto de uns sete anos, moreno, que no momento seguinte projetou a mão para frente e lançou a bolinha de gude na direção do triângulo desenhado a giz mais para o centro da vila, no interior do qual outras bolas semelhantes jaziam. A bola do menino acertou uma delas, o que lhe dava o direito a uma nova tacada seguida. Amarante o viu correr mais para perto do triângulo para o novo arremate. A lembrança o paralisou. Quem era o garoto? Quando estivera ali pela última vez?

A resposta também surgiu certeira em sua mente, uma certeza inquestionável. A lembrança do menino jogando bolas de gude ficou clara. Ele prosseguiu acertando todas as outras dentro do triângulo, para desespero dos outros meninos, que de repente se viam sem suas maiores riquezas, enquanto o outro aumentava sua coleção.

O menino era ele mesmo, Augusto Amarante, anos e anos atrás, tantos que sequer se lembrara, ao receber a notícia do corpo encontrado na Vila do Rosário, de que aquele bucólico conjunto de casas certa vez fora o lar de sua família. Agora que a coisa o atingira, um sorriso brotou de imediato em seus lábios.

“Quê foi?” Era Pedro, investigador que viera com ele. Testa franzida.

“Não, é que...” Amarante ficou calado e seu sorriso morreu à medida que sua expressão se fechava. “Qual era mesmo o nome do homem morto?”

“O garoto que ligou disse que ele se chamava Valter. Porra, Amarante, que cara é essa?”

“Nada. Nada.” Ele passou por Pedro, seguindo em frente. O apalermado companheiro o seguiu até chegarem a casa número 4.

Ele se lembrou. Surpreendeu-se com isso. Fazia muito tempo. Mas algo saltou daquele espaço desordenado de sua memória onde ficava arquivado o que já fora esquecido. Aquele quintal. Belos canteiros com plantas diversas, as folhas se estendendo rente ao muro e ultrapassando-o, como se tentassem escapar. Nos fundos havia uma escada que levava à casa ao lado, uma quitinete. Foi para lá que foi conduzido pelo PM que atendera o chamado, juntamente com o que aguardava lá fora. No caminho, ao passarem pela sala, viram um jovem encolhido sobre o sofá, pernas apertadas contra o corpo, rosto escondido contra os joelhos. Pedro ficou com ele. Amarante e o PM, Gláucio, contornaram a casa e subiram as escadas. Amarante percebeu que estava tenso, um tipo novo de tensão que se diferenciava da usual.

“A coisa tá feia,” disse Gláucio, antes de entrarem.

Feia. Descrevia a cena. Amarante já vira piores. Ainda assim, não se lembrava de um nó na garganta tão apertado.

Valter. O nome lhe despertava algo de familiar. Fazia tempo, muito tempo.

3

O investigador tinha se apresentado como Augusto. Era um homem alto, magro, de cabelo castanho brilhoso jogado para trás, cavanhaque discreto e olhos muito pretos. E estava nervoso, Vinícius percebeu. Desconfortável. Tenso.

Ele se ajeitou no acento. As lágrimas já haviam secado e ele estava mais calmo. Mau se deu conta do vento gelado que entrou abruptamente e varreu a sala. O outro policial que chegara há pouco soltou um palavrão e correu para fechar a janela, subindo em seguida o zíper da jaqueta pesada até o queixo. Augusto disse:

“Quem mais mora aqui?”

“Minha mãe. Ele está de plantão no hospital. Já liguei pro celular dela.”

“Então seu primo morava aqui com vocês.”

“Sim.” Vinícius se deu conta do verbo no pretérito. É isso que acontece quando você morre: te confinam na conjugação do era, do não é mais. E logo tudo que sobra de você é essa memória turva e imprecisa de alguém que esteve aqui, que morou na quitinete dos fundos, que em certa época ocupou aquela cadeira que agora fica vazia na hora do jantar. Ele fechou os olhos e sentiu um arrepio que não teve nada a ver com o frio. De repente sentiu-se cansado, exausto, pronto para uma longa e revigorante noite de sono.

“Conte o que aconteceu.” O investigador, olhando-o fixamente.

“Ele não desceu pra jantar. Cheguei da escola umas onze horas, e vi o prato que a minha mãe tinha preparado pra ele dentro do micro-ondas, cheio. Achei estranho, porque ele sempre janta na mesma hora. Depois que eu terminei de comer, subi pra ver se ele queria que esquentasse a comida dele. Ele estava lá, daquele jeito que vocês viram.” Vinícius inconscientemente se encolheu sobre a almofada. A imagem estava vívida feito uma brasa em seus olhos. Ele pressionou as pálpebras para que fosse embora.

“Você mexeu em alguma coisa lá em cima?”

“Não. Só no celular. Peguei o celular dele e liguei pra vocês.”

“Quando você chegou, a casa estava aberta? Alguma coisa fora do lugar, algum sinal de confusão?”

Vinícius se sentiu confuso. “O quê?”

“Você viu algo de suspeito? Ouviu alguma coisa? O tiro?”

“Não. Não vi nada. Não ouvi nada. O portão e a porta estavam trancados quando eu cheguei. Estava tudo no lugar.”

Os três policiais trocaram olhares. O investigador que dissera se chamar Pedro e que fechara a janela estava de pé a sua frente, as costas apoiadas na parede, e logo voltou a concentrar-se detidamente nele. Vinícius teve a sensação de que, se o menor dos músculos de seu rosto se mexesse, aquele cara notaria.

“Então você chegou, jantou, foi subir para falar com seu primo e o encontrou lá?”

“Assisti um pouco de televisão enquanto comia.”

“Ah. Bem, apenas ratificando: nada de anormal quando você chegou; nenhum barulho estranho ou suspeito, nada que parecesse um tiro; ninguém veio procurar Valter enquanto você comia. Certo?”

“Sim,” Vinícius disse. “Ele só estava lá. Só estava lá, caído.” Ele fixou os olhos pesados no chão.

“Onde você estuda, rapaz?”

Demorou a responder. Era uma sonolência que ele não sabia de onde saíra, e que retardava seus pensamentos. O investigador a sua frente se impacientou e estalou os dedos, como se quisesse despertá-lo.

“O quê? Desculpe.” Passou a mãos pelo rosto. “Fiquei cansado, de uma hora para outra.”

“Tudo bem. Então: onde você estuda?”

Ele deu o nome de um colégio estadual da região.

“À que horas saiu de lá?”

“Umas dez, quinze para as onze.”

Houve um breve silêncio. Vinícius se perguntou se eles checariam se aquelas informações eram verdadeiras. Ele queria que acabassem ali, que o deixassem em paz. Queria dormir e acordar e esquecer que aquilo tinha acontecido. O cheiro do quarto de Valter impregnava suas narinas e o nauseava.

“O que a sua mãe disse?”

“Que ia tentar sair mais cedo. O plantão dela só termina de manhã.”

Augusto parecia refletir para ver se não tinha se esquecido de nada. Vinícius esperou.

“Aquela arma, você já a viu antes?”

“Não.”

“Ele parecia estranho nos últimos dias? Algum comportamento fora do incomum, mais agressivo, mais calado?”

“Normal.” Um leve sacudir de ombros.

Viu que a resposta irritou Augusto; problema dele. Não ia ficar se forçando a formular respostas maiores e detalhadas só para agradar polícia.

“É só isso? Ele simplesmente estava ‘normal’?” O policial sinalizou um par de aspas no ar.

“É. Isso.”

Ele ia dizer alguma coisa, provavelmente algo rude, mas o telefone tocou no momento seguinte, interrompendo o que quer que fosse. Vinícius estendeu a mão e pegou o fone de cima da mesinha ao lado do sofá. Disse um “alô” preguiçoso. Era sua mãe. Assim que ouviu a voz dela, estendeu o aparelho na direção do investigador, dizendo quem era. Quando Augusto levou o fone ao ouvido, Vinícius se levantou, cruzou a sala, passou pela cozinha e entrou no banheiro. Encarou o próprio rosto no espelho. Havia algo de errado, ele sabia. Algo que estava faltando. E ele localizou esse algo enquanto corria os olhos pelas marcas das lágrimas que chorara mais cedo. Tinham sido poucas, e ele jamais pensaria que viria a derramar alguma numa ocasião como aquela; então por quê?

Decidiu: havia chorado porque algo dele se fora junto com Valter. Não fora por tristeza. Tristeza era justo o que estava faltando. Era tudo que ele não estava sentindo. Ele estava tranquilo, sereno, em paz. Um pequeno sorriso sinalizou em seus lábios durante um segundo, não mais que isso, e então saiu dali. Da curva da cozinha para a sala, ouviu vozes, e, quando estava novamente naquele aposento, viu que mais gente tinha chegado para fazer-lhes companhia.

* * *

“Eu não disse sim de cara. Porra, só se eu fosse um maluco. Mas ele insistiu. Acabou conseguindo me convencer. Me deu a arma. E dois mil reais. Disse que depois do serviço, eu ia ganhar mais oito. Não me olha com essa cara. Você não entende, não tem ideia do que é estar na situação que eu estava, quase tendo que mendigar! Isso não justifica, mas, porra, tira esse olhar do rosto, como se eu fosse merda. Eu sou gente. Eu sou gente, porra.”

“Sim. Um ser humano que matou outro.”

“Porque eu precisei.”

“Não quero saber. Continua.”

“Ele me deu as instruções. Eu tinha que vir pelo terreno baldio que dá na avenida e subir pela árvore que dava na janela do quarto do cara. Era assim que ele se referia à pessoa que eu tinha que matar, sempre o cara. Ele disse que a janela estaria aberta, e que a pessoa estaria lá dentro, provavelmente sentada numa escrivaninha. Perguntei como ele podia garantir essas coisas, e ele respondeu dizendo que ia me dar as respostas na hora certa. Marcou o dia e a hora. Tinha mais duas pessoas morando na casa principal, e elas não podiam estar lá quando eu chegasse. No dia combinado, ele me ligou. Eu estava nervoso. Estava quase na hora. Ele disse: ‘Nós temos um acordo. Um pacto. Você tem um trabalho a fazer. Anda, vá logo. Vai ficar tudo bem. Eu garanto. Vá fazer o que você tem que fazer.’”


Continua...


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Resenha: REI RATO - China Miéville

China Miéville é um escritor que comumente tem o nome associado a um subgênero relativamente novo da literatura fantástica conhecido como new weird. O romance de estreia do inglês, “Rei Rato” (Tarja Editorial, 400 páginas), lançado originalmente em 1998, acaba de ser publicado no Brasil numa elegantíssima edição, marcando a chegada de um dos autores mais alardeados da última década ao nosso mercado. “Perdido Street Station”, seu segundo livro, considerado uma obra-prima e espécime perfeito do que é o new weird já está sendo traduzido pelo mesmo Alexandre Mandarino que cuidou de “Rei Rato” – e já tem endereço certo na minha estante, ao julgar pela qualidade que encontrei neste primeiro trabalho do cara.

O cenário é Londres, e nosso protagonista, Saul Garamond, um jovem de vinte e poucos anos que é levado pela polícia para interrogatórios na fria manhã em que seu pai cai da janela do apartamento onde morava. Abalado, confuso e visto como um suspeito de assassinato, Saul é liberto de sua cela por uma estranha e fedorenta figura que se move furtivamente e fala no jargão cockney (espécie de dialeto do East End de Londres), uma figura amarga que se autoproclama Rei Rato e lhe conta segredos de seu passado. Saul tem sangue de rato nas veias, faz parte da realeza, e os bueiros e esgotos da cidade passam a ser sua morada com Rei Rato, que planeja uma vingança há muito atrasada contra um misterioso e malévolo inimigo.

A trama se concentra, num primeiro momento, na passagem de Saul para seu novo mundo: os becos sujos, as esquinas escuras, os telhados e calhas, os caminhos sinuosos da rede de esgoto, os cantos da cidade para os quais se evita olhar e onde as sombras camuflam o movimento agora lhe são familiares, compondo seu novo lar. Miéville é extremamente competente em suas descrições de Londres não somente no sentido da ambientação em si, mas também em expressar a transformação da cidade aos olhos de Saul – transformação esta que se confunde com sua própria. Sua identidade de rato lhe confere habilidades e características como furtividade, rapidez e força, ao mesmo tempo em que o transformam num clandestino, um rabisco imperceptível à sombra dos prédios e por sobre os telhados. O conflito das duas naturezas de Saul, o afastamento que sua nova condição exige versus a necessidade de contato com pessoas normais é um dos elementos mais bem trabalhados de “Rei Rato”. O momento em que Saul trava um diálogo com uma sem-teto portadora de problemas mentais ilustra muito bem seu estado de solidão e o desejo por elos verdadeiros e humanos, em contraste com a sujeira em suas roupas e a horda de seres rastejantes que o segue.

Em contraste, Rei Rato abraça inteiramente seu lado animal, mostrando-se sempre mais rápido, mais forte, mais cheio de si. Orgulho, ambição e desejo por poder o governam, o que o coloca no extremo oposto de Saul. Sua “sala do trono” – uma espécie de aposento real bem no meio dos esgotos de Londres, com direito a um trono – é a amostra perfeita de sua personalidade arrogante e ufanista. Em paralelo, Saul não consegue se imaginar vivendo como o mentor – e não podemos deixar de nos perguntar à medida que a leitura prossegue se Saul irá se tornar ele mesmo um novo Rei.

A trama guarda boas surpresas, principalmente no que se refere ao passado de Rei Rato, Saul e seu pai morto. Uma reviravolta em particular é bastante previsível, o que não atrapalha, já que o autor é sensato o suficiente para não apoiar a história sobre ela. Dois amigos de Saul, Fabian e Natasha, têm papéis importantíssimos, sobretudo no clímax, e os emblemáticos Loplop, senhor dos pássaros, e Anansi, mestre das aranhas, também figuram entre os curiosos personagens principais. Miéville concede particularidades a cada uma das figuras que cruzam suas páginas, fazendo com que soem imprevisíveis, exóticas, espirituosas, nunca aborrecidas ou tediosas.

Mas o maior mérito do autor sem dúvida foi ter criado para Saul uma nêmesis verdadeiramente ameaçadora. (Não vou dizer aqui quem é o vilão da história, pois considero um pequeno spoiler, mas trata-se de um personagem que remete a certa lenda europeia transformada em conto pelos Irmãos Grimm.) Acompanhando suas ações permeadas por crueldade e total desprezo pela vida humana e constatando a todo momento seu enorme poder, realmente tememos pelo destino de Saul quando chegar o momento da batalha final entre os dois – o que tempera o clímax com boas doses de expectativa e suspense.

E falando no clímax, este que não funcionaria sem outro personagem constante nas páginas de “Rei Rato”: o drum and bass, estilo de música eletrônica surgido em meados dos anos 90, derivado do jungle, caracterizado pela presença constante de linhas de baixo e batidas rápidas. Se Miéville mostra-se inspirado em suas descrições da selva urbana londrina, parece ainda mais solto ao dissecar em detalhes os elementos que dão forma ao drum and bass, sobretudo nas sequências em que Natasha está presente (a amiga de Saul é também uma DJ). Muito mais que apenas estilo musical, o D&B constitui toda uma subcultura, com seus jargões, gírias, formas de comportamento. A forma como a música se incorpora à trama é admirável, justificando todo o tempo dedicado a expô-la, desnudá-la, exibi-la da maneira mais elaborada possível.

Escrito numa prosa cheia de estilo, fundindo com fluidez a fantasia a um ambiente urbano, sem se comprometer com finais felizes e evidenciado a veia marxista de seu autor em certos trechos específicos (Miéville é membro do Socialist Workers Party), sobretudo no epílogo, “Rei Rato” foi certamente uma de minhas melhores leituras esse ano. Seus poucos pontos negativos mal são notados, passando como ratinhos assustados (uma escolha de palavras que me parece apropriada) ao encararem a esmagadora qualidade do romance. Incomodou-me discretamente o pouquíssimo contato entre Saul e seus amigos ao longo da história, uma vez que grande parte das ações do protagonista se justificam por sua enorme preocupação com Fabian e Natasha. Por outro lado, há momentos em que Miéville se excede um pouco em todas as suas descrições. Nada disso atrapalha a leitura ou enfraquece a trama como um todo. “Rei Rato” é uma ótima experiência literária, funciona muitíssimo bem como entretenimento e nos introduz a um autor de talento indiscutível. Que venha “Perdido Street Station”.

Boas leituras.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Resenha: PEDAÇO DO MEU CORAÇÃO - Peter Robinson

Peter Robinson iniciou a série protagonizada pelo detetive-inspetor Alan Banks em 1987, e não parou mais desde então. É um daqueles caras que emplaca um personagem e passa anos a fio inserindo-o nas mais intrincadas e inacreditáveis investigações, terminando por se tornar popularíssimo em seu país de origem, a Inglaterra. “Pedaço do meu Coração” (Record, 444 páginas) foi o seu quarto livro lançado no Brasil (o segundo foi “Brincando com Fogo”, cuja resenha você pode conferir aqui), e mostra a habilidade de um autor calejado e completamente a vontade no gênero que o consagrou.

Separados por 35 anos, dois assassinatos aparentemente desconectados mobilizam Banks e o conservador detetive Stanley Chadwick. O primeiro tem que entender o que há por trás da morte de um homem cuja única informação disponível é o nome, Nick, pouco antes de um blecaute numa região erma de Eastvale; numa narrativa paralela, Chadwick assume o caso de esfaqueamento de uma jovem não identificada durante um superlotado festival de rock no final dos anos 60. As duas investigações, é claro, guardam mais em comum do que se pensa inicialmente, e os segredos do passado estendem suas sombras até o presente.

A história é contada por meio de constantes saltos no tempo. Numa cena temos a polícia descobrindo o cadáver da moça desconhecida trinta anos atrás e, na seguinte, após um corte (geralmente representado por um espaçamento maior entre parágrafos), pulamos para o presente e somos apresentados ao caso que Banks e sua equipe têm de resolver. Algo como duas novelas independentes que se intercalam em momentos específicos. Trata-se, a meu ver, de uma estratégia um tanto arriscada: o autor corre o perigo de não conseguir manter ambas as narrativas interessantes e deixar o ritmo cair; a abordagem um tanto detalhista de Robinson em relação ao trabalho policial em si colabora nesse risco. É um enorme número de personagens que cruza as páginas do romance, e cada um deles tem seu momento de interrogatório; além disso, os demais procedimentos e etapas das investigações são abordados detidamente. Contudo, a experiência do autor na prosa, na criação e desenvolvimento de personagens, e, sobretudo na condução do suspense, impedem que a constante alternância entre duas tramas transforme o livro numa experiência enfadonha. Robinson mantém-se dinâmico e não deixa a peteca cair.

Os detalhes vão surgindo de maneira gradual, o que certamente agradará os fãs de policial que apreciam uma trama bem urdida que vai envolvendo aos poucos, até o ponto de não ser mais possível parar de virar as páginas. Quando pistas do assassinato de 1969 começam a encontrar eco na investigação de Banks, e certos personagens reaparecem 35 anos após contracenarem com Stanley Chadwick, o leitor estará totalmente fisgado. É digna de nota também a construção dos personagens mortos da história. À medida que as perguntas vão sendo feitas e respostas são obtidas, a personalidade de ambos torna-se mais e mais nítida, e, juntamente com os detetives à frente das investigações, o leitor vai tomando conhecimento, de maneira intuitiva e crescente, de quem aquelas pessoas eram, suas peculiaridades e os possíveis motivos pelos quais poderiam ter sido mortas. Robinson dispensa uma atenção que até poderia ser considerada exagerada a certos personagens secundários, nos quais concentra-se sem torna-los efetivamente importantes para a trama, mas é uma falha perdoável considerando o todo.

Bastante à vontade com seus personagens usuais, principalmente o protagonista Alan Banks, o autor divide bem o tempo entre retratar suas ações dentro da investigação e fora dela, em suas vidas pessoais. Da visita inesperada do filho de Banks, Brian, ao pai, ao conflito da detetive Annie Cabbot com sua superintendente, vamos conhecendo e nos aproximando mais dos protagonistas. Banks, com seu método um tanto caótico e ao mesmo tempo uma inteligência invejável (que não deixa de falhar às vezes) mostra-se um protagonista forte o suficiente para carregar a história. Enquanto isso, Stanley Chadwick surge embebido em diversos clichês do gênero – o policial melancólico traumatizado pela guerra, meticuloso e cheio de preconceitos –, mas não deixa de convencer; a relação entre ele e sua filha Yvonne acaba se tornando uma das âncoras na narrativa. Em sua ampla maioria, os demais personagens – que quase sempre surgem como suspeitos – mostram-se humanos e críveis, mesmo quando não escapam de certos estereótipos.

Demonstrando mais uma vez a experiência e desenvoltura, Robinson mantém, como convém a um bom romance policial, o suspense até o último capítulo, onde a história culmina numa resolução satisfatória, embora coroada com um clímax um tanto raso. De todo modo, o autor ganha pontos pela ótima construção da trama, pela boa reviravolta apresentada e pela carga dramática impressa nos diálogos quando necessária. Um legítimo pageturner de um cara que, após tantos anos, já sabe bem o que fazer dentro do gênero. Fica a recomendação.

Boas leituras.


sábado, 9 de julho de 2011

A Batalha das Pontes.

Ontem comentei lá no Twitter sobre um episódio curioso que rolou esse ano, num Skoob Encontro, no Rio. Nunca havia ido a nenhum desses encontros, mas um amigo me falou que o tema da vez seria romance policial, e eu nunca perco uma oportunidade de bater papo sobre isso. O encontro em si foi bacaníssimo: a galera mais por dentro do gênero dando dicas de autores que achavam o máximo para os que liam menos, todos elencando seus favoritos e detestados, e até um debate rápido sobre o porquê do gênero nunca ter dado muito certo no Brasil rolou mais pro final; uma tarde bem agradável, enfim. A situação engraçada rolou antes do encontro em si começar, quando todos estavam em grupinhos, socializando.

Um grupo de pessoas conversava sobre livros de fantasia. Vampiros, anjos, Percy Jackson, por aí a fora. Não estou muito por dentro desse universo, de modo que, pra entrar na conversa, falei sobre o sabia. Perguntei ao grupo se algum deles já havia lido “A Batalha do Apocalipse”, do Eduardo Spohr. Negativas. Não tinham lido. Mas uma das integrantes do grupo falou um pouco mais sobre isso.

Em suma, ela disse que tinha ficado super a fim de ler o livro naquele momento de boom pouco depois do lançamento; parecia ser interessante. Mas desistira. O motivo? Bem, ela descobrira que há uma cena no livro em que dois anjos batalham... na Ponte Rio-Niterói. Isso, ela disse, minou sua vontade de ler o livro. Afinal, era a Ponte Rio-Niterói, cara. Aquela ali. Imagina se a Ponte combina com dois anjos sinistros batalhando?

Ponte Rio-Niterói, Brasil. Se você fosse um anjo guerreiro com uma missão, teria dito a seu um oponente, ao encontrá-lo por lá: "Pô, cara, bem caído aqui. Vamos dar um pulo em outro lugar."


Minha reação foi primeiro de riso, mas depois se transformou num pouquinho de irritação. Eu tentei entender a lógica, juro. Mas, falando sério, não tem lógica nenhuma nesse raciocínio. Pode procurar que você não vai achar.

Em linhas gerais, dá pra entender o porquê de a Ponte Rio-Niterói tê-la repelido como leitora. Todo aquele papo sobre o mercado investir muito mais no que vem de fora do que no que é produzido aqui dentro, e isso levar a uma espécie de preconceito com a literatura de gênero brasileira, me parece ser uma realidade ainda para muitos leitores brasileiros. Por isso falei a ela, alto o suficiente para que todo o grupo ouvisse: “Se a briga entre os anjos fosse na Ponte Golden Gate, lá em São Francisco, duvido que você ter um problema com isso”. Não lembro direito de sua resposta, do que ela disse exatamente; o que me lembro foi que ela não disse nada que enfraquecesse minha tese. Da qual eu continuo muito convencido, diga-se de passagem.

Não sou um purista chato que acha que autor brasileiro DEVE escrever histórias passadas no Brasil; também não é um pensamento faça lá muito sentido. Acho que uma boa história vem antes da ambientação. Brasil, Estados Unidos, França, Bósnia e Herzegovina: se o autor conhece o lugar que ambienta sua trama, se sabe do que está falando, por mim tá tranquilo. É claro que se pode argumentar que, sendo brasileiro, faz muito mais sentido escrever sobre o Brasil e que, em se tratando de literatura de gênero, como é a fantástica, que vive um bom momento em termos de produção e aceitação, seria importante produzir mais e mais histórias que se passem em nossa terra, justamente pra tentar naturalizar a coisa e afastar um pouco aquela ideia de que autor bom só mesmo os de lá de fora. E eu concordaria com isso. Mas, novamente: boas histórias vêm antes da ambientação. Se você consegue escrever sobre um outro país que não o seu com desenvoltura, vá em frente; se, ao contrário, quiser usar como cenário a rua da sua casa, que fica numa cidadezinha no interior do estado, também está ótimo. Desde que se criem boas histórias.

Golden Gate Bridge, São Francisco, EUA. Aqueles rastros de luz ali embaixo não deixam dúvida: é aqui que os anjos vêm pra saírem no pau.


Agora, o problema começa quando esse elemento passa a ser tomado isoladamente para desmerecer uma obra. Sim, uma ambientação desastrada pode comprometer a melhor trama do mundo, mas isso independe de onde a trama está se passando em primeiro lugar. Se o cara não souber do que está falando – ou não tiver uma boa habilidade de descrição –, um abraço. E não importa se ele estiver escrevendo sobre Paris, Rio de Janeiro, um mundo fantástico criado na cabeça dele ou fanfic de “O Senhor dos Anéis”.

“A Batalha do Apocalipse” é divertido e bem escrito, proporcionando bons momentos de entretenimento. Os problemas que o livro em minha opinião apresenta passam longe de ter a ver com os lugares que o autor decidiu utilizar como cenários de sua história. Dito de outra forma, a Ponte Rio-Niterói é um bom lugar para anjos se enfrentarem na mesma medida que a Golden Gate seria. Devíamos prestar atenção muito mais em como o autor descreve a luta, qual a função dela dentro da narrativa, como ela ajuda no desenvolvimento dos personagens, coisas assim.

Me agrada muitíssimo ler um livro de gênero (seja policial, fantasia, ficção científica, terror), ou mesmo um conto, escrito por um brasileiro e passado no Brasil, pois é o país onde vivo e em cuja cultura estou imerso. Um reply que recebi de um amigo ontem, após o comentário no Twitter, resume esse raciocínio. Disse ele (que não leu “A Batalha do Apocalipse”): “Batalha na ponte Rio-Niterói parece irado demais. É muito melhor ler algo quando a gente conhece os arredores”. Ao que eu respondi: “Esse é justamente o ponto”.

Nem todos os escritores brasileiros farão dessa forma, no entanto. Sem problemas: o lugar onde você escolher ambientar a sua história não influenciará por si só na qualidade dela. A não ser que você não capriche. Então, já sabe.

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