segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Resenha: O ESPANTALHO - Michael Connelly

A recente vinda de Michael Connelly ao Brasil, para um dos cafés literários da Bienal do Livro, foi o fator determinante para que eu adquirisse “O Espantalho” (Suma de Letras, 378 páginas), livro que o autor norte-americano lançou em 2009 e por aqui saiu no ano passado. Já tinha lido dois outros romances de Connelly e, embora nenhum dos dois tivesse me despertado reações das mais efusivas, em minha memória eram histórias policiais sólidas e muito bem escritas, com um pé na tradição noir, sem render-se a ela de todo. Terminada a leitura de “O Espantalho”, não tenho muito o que acrescentar a essa conclusão anterior.

Protagonizado por Jack McEvoy – que não é o personagem mais conhecido e recorrente de Connelly, lugar este ocupado pelo tira Harry Bosch, protagonista da maioria de seus livros –, a história se inicia com a demissão do repórter do Los Angeles Times como parte de um programa de redução de despesas. Porém, Jack não terá de ir embora imediatamente: mais duas semanas de trabalho o aguardam, durante as quais terá de treinar Angela Cook, sua jovem e versátil substituta. Sem muitas perspectivas em relação ao trabalho – os jornais impressos estão perdendo espaço para a internet -, McEvoy decide se despedir em grande estilo, investigando a prisão de Alonzo Winslow, rapaz negro que está sob custódia pelo brutal assassinato de uma stripper. Porém, o que o jornalista sabe sobre o caso é somente a ponta do iceberg.

A história é narrada pelo próprio McEvoy em ritmo de contagem regressiva, uma vez que todo o tempo que lhe resta são duas semanas. De modo que, desde o início, um forte senso de urgência é impresso na trama, o que de imediato atrai o leitor e o prende à narrativa. Merece destaque também as boas descrições do autor – que, antes de se tornar escritor em tempo integral, trabalhou como repórter – do ambiente e da rotina do Los Angeles Times, que conferem verossimilhança e detalhismo à história. Nesse sentido, o atual contexto dos jornais impressos e as enormes mudanças ocasionadas pelas edições on-line, temas abordados por Connelly em momentos muito bem encaixados, ajudam o leitor a se situar e entender melhor a dinâmica entre os personagens que cruzam as páginas de “O Espantalho”.

Em grande medida, McEvoy – que protagonizou outro sucesso de Connelly, “O Poeta” – é um personagem bastante clichê, o tipão repórter ambicioso sempre em busca de uma exclusiva, o cara que conhece os meandros do sistema e sabe a que saídas recorrer. Ao mesmo tempo, há nele muito do herói durão que não gosta de esperar acontecer e resolve a parada sozinho quando tem que fazê-lo, e de quebra salva a donzela em perigo. É mérito de Connelly, portanto, conseguir transforma-lo numa figura crível e humana. Por outro lado, a agente do FBI Rachel Walling, antiga paixão de McEvoy que retorna para ajuda-lo na investigação, é uma das figuras mais bacanas do livro – também figurando em outros dos romances de Connelly –, soando competente e verdadeira quanto aos sentimentos, nunca se tornando uma figura fragilizada, mesmo que momentaneamente frágil.

Em relação à trama, não há grandes surpresas ou reviravoltas ao longo do romance. Isso se deve à escolha do autor de apresentar duas linhas narrativas, uma acompanhando McEvoy em sua investigação e outra seguindo o misterioso Carver, que o tempo todo sabemos ser o assassino por trás de tudo. Trata-se de uma opção sem muita razão de ser, em minha opinião, pois a ausência de surpresas é sempre frustrante em se tratando de um romance policial. O que conta em “O Espantalho” acaba mesmo sendo o jogo de gato e rato entre McEvoy/Walling e Carver. Connelly consegue imprimir suspense na história, que nunca se torna enfadonha ou desinteressante, pondo em conflito sua dupla de investigadores contra um psicopata que parece estar sempre um passo a frente de todos, criando uma dinâmica bacana que faz o leitor se perguntar o que acontecerá quando o momento do conflito chegar. Mas desconfio de que, se tivesse apostado numa trama mais “tradicional” – em que o mistério só é desvendado no final – o saldo final teria sido muito mais interessante.

Bem, é como minha memória anunciou no momento em que eu comprava este “O Espantalho”. Depois de tanto tempo nas listas de mais vendidos, o experiente Connelly dificilmente apareceria com algo que não pudesse ser considerado bom. É o caso aqui. Apesar de uma escolha narrativa um tanto incomum e muito pouco grata, o autor consegue se sair bem e apresentar um romance sólido e bem construído, mesmo que não espetacular. Já vale a pena.

Boas leituras.

Um comentário:

  1. Como você sabe, foi o primeiro livro dele que li e virei fã. Eu nem ligo muito se a fórmula for batida, se o autor a executar bem. E até gosto quando a gente sabe quem é o assassino antes. Eu fico agoniada por saber o que o 'mocinho' não sabe. :P

    Amplexos!

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